domingo, 27 de fevereiro de 2011

FABRICIO



Nunca gostei muito de cartas, principalmente as anônimas, mas uma série delas mudou minha vida.  Meu nome é Fabrício, sou professor de física, os meus alunos dizem que sou um ótimo professor e num ato de falsa modéstia, digo que não sou. Vivo numa época não muito distante, vivo na década de 80 e o mundo se prepara para o final da era industrial e começa uma época em que o mundo inicia a era da informação. As pessoas começam a imaginar coisas que jamais pensei em ver, como um Disco Compacto com fundo prateado capaz de guardar informações e ao mesmo tempo lamentam o assassinato de alguém até então considerado um ídolo; confesso que gostava dele, mas não o considero tanto assim.
Da minha infância, sinto falta não dos meus amigos, pois nem me lembro deles, enquanto estavam fazendo coisas pertinentes às crianças, eu tinha uma saúde muito fraca e meus pais sempre me mantinham em casa. Depois, logo que completei meus 10 anos, meus pais foram para o baile de formatura de minha irmã e nunca mais voltaram, demorei certo tempo para associar as palavras do padre em frente aos caixões no corredor de casa com a morte, talvez se minha irmã tivesse voltado do hospital na madrugada e dissesse para mim e para meu irmão: “Papai e mamãe morreram e nunca mais vão voltar.” Talvez eu aceitasse de forma mais fácil, mas aos 15 anos, descobri minha paixão pela física, quando li sobre Michael Faraday e a física quântica, o quanto pequenas partículas podem exercer grande influencia sobre coisas tão grandes, aquilo me fascinava e logo mais tarde, li alguns estudos  de William James falando sobre a ciência noética. Aquilo tudo era tudo muito novo para mim e para o mundo, coisas difíceis de acreditar. Após terminar os estudos na escola, comecei o curso na faculdade e logo encontrei um estágio, e deste estágio fui efetivado como professor e redator.
Minha história começa numa manhã chuvosa de fevereiro, para ser mais exato, no dia 28 de fevereiro de 1981, um sábado. Moro em um loft modesto, onde também está o meu laboratório.
 Ainda me lembro da face do carteiro me entregando uma carta sem remetente e apenas meu nome como destinatário e também me lembro da minha surpresa ao notar meu nome naquele envelope misterioso, foi uma pena não ter aberto prontamente o envelope e lido toda a informação contida nele e talvez me desse conta do que estava envolvido. Mas não dei atenção à carta nem a abri naquela manhã, o que chamou mais minha atenção do que uma carta sem remetente e destinada diretamente para mim? Uma manchete no jornal de um acidente terrível de um trem que descarrilou e atingiu dutos de gás, causando uma grande explosão e fazendo 57 vítimas incluindo o filho de um executivo alemão, mas o que realmente chamou a minha atenção foi um anúncio: A abertura de uma empresa, uma multinacional, pedindo professores de física avançada; a empresa se chamava Heaven’s. Estava de certa forma animado para me prontificar, mas não queria largar os meus alunos.
Fui para o meu lugar favorito nessa cidade, o Lago El Paradiso, sim, um lago dedicado a comunidade hispânica, as pessoas costumam pescar por lá, mas eu vou ao deck todos os sábados de manhã para analisar a forma que a física influencia em tudo, a forma que um pode ser um milhão e a ordem natural das coisas.
Já amei uma pessoa, ela se chamava Karen, céus, ela era tão linda... Se tivesse em minhas mãos recursos que pudessem resgatar esse amor, eu o faria, mas esse detalhe no momento é irrelevante. Considero os sentimentos algo complexo demais, porém capaz de mudar muitas coisas no mundo.
O dia passou, e a carta ficou em cima da minha mesa, com as contas e demais correspondências. Puxei minha cadeira, e decidi abri-la, e logo ali naquele momento um terror intenso me dominou, não pude evitar de pegar o jornal e confirmar os fatos, seu conteúdo era maquiavelicamente cheia de detalhes, alguns dos quais jamais me esquecerei... Sabia que algo mudaria daquele momento em diante.

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