domingo, 22 de maio de 2011



Aula de inglês...
Todos olham para a minha cara, parece que eles sabem o que aconteceu, tudo bem que não é todo dia que aparece alguém com um olho roxo na escola ainda todos tem uma vantagem: todos sabem que minha mãe ouve vozes e meu pai é casado com aquela fracassada, logo fico tirando conclusões que todos sabem do que estou sendo submetido.Mas sei que é só coisa da minha cabeça.O professor Fabrício é uma excelente pessoa, fico admirado de ver ele, desde que a Karen... desapareceu, ele meio que se fechou no mundo dele, mesmo assim, a vida dele continuou.
Nessa aula a professora me disse que eu não precisava apresentar o trabalho, mas mesmo assim eu apresentei, afinal, apenas meu olho ta avariado, minhas pernas, braços e minha boca ainda funcionam.
As horas passaram até que rápido. Vou para a porta da escola, e lá o professor me disse:
- Vou com você para casa, preciso falar com seu pai.
Essa frase me assustou e ao mesmo tempo me encheu de esperança. Fomos pelo caminho normal, em silencio... Temo que meu pai pode não acatar bem a visita do professor mas tenho esperança que ele mude.
Não sei o que fazer com relação a ele, ou o que vou falar para o pai dele. Mas esse garoto não pode ficar assim, e finalmente chegamos.
Jansen nem precisou entrar na casa, para que ele fosse recepcionado pelo pai que já mudava sua expressão em me ver. Logo que chegamos perto da cerca da casa dele, seu pai levantou a mão na direção do rosto do garoto e cravou a mão no cabelo dele, prestes para puxá-los.
- O que o garoto aprontou dessa vez? – ele me perguntou em tom acusativo
- Senhor Strauss, o que te pergunto: O que ele aprontou ontem? – perguntei em tom firme
- O senhor sabe que adolescentes precisam de disciplina, então o disciplinei a moda antiga. – ele soltou o cabelo de Jansen e cruzou os braços se reclinando sobre sua coluna – E a forma que eu educo o meu filho não é da sua conta!
- Engano o seu, o senhor não pode tratar esse menino dessa forma, ele é humilhado, o senhor não enxerga isso? -  confesso que me exaltei .
-Então o professor traumatizado solteirão vai opinar na forma que eu educo o MEU filho? – nesse momento, olhei para Jansen , e seu pai também.
Por que eles me olham? Será que sou tão mal assim?
Não pedi para o professor vir até aqui, ele veio por que ele quis... Que porcaria que eu fiz?
- Senhor Strauss, quero que o senhor reavalie seu modo de disciplinar... – sugeri pacificamente para ele.
-Já que acha que estou errado... Leve ele para sua casa, professor!
-Seu desejo é uma ordem! – disse com firmeza e certeza – Jansen, faça suas malas, ficarei te esperando, você vem morar comigo no meu loft, tenho um quarto sobrando.
Nunca me esqueci do olhar daquele garoto, foi algo fantástico. Ele entrou na casa como um foguete, seu pai ficou tenso, me olhando com ódio no olhar, mas ele não poderia fazer nada. Em menos de vinte minutos, Jansen já estava do meu lado. Ele parecia tenso, imagino como ele devia estar. Desejei um bom dia para o pai nervoso e partimos.
Passamos na padaria na esquina de meu loft, compramos pães e acomodei Jansen em seu novo quarto, sentamos à mesa olhamos para a mala e eu disse:
- Jansen, vamos começar a estudar essas cartas e esse objeto...
- Professor, vamos sim...
- Jansen, não me chame de professor, por favor, me chame de Fabrício.
-Tudo bem, tenho muita certeza de que iremos nos dar muito bem, e adoraria te ajudar no laboratório.
Embora aquele primeiro momento me enchesse de orgulho, também senti uma espécie de medo e incerteza. Mas aquele menino, Jansen, estava a salvo.

domingo, 8 de maio de 2011

Jansen



A chuva caia lentamente, só na mente dele... Quando você tem 16 anos e é um aluno aplicado você pode ter alguns momentos criativos, Jansen sempre teve seus momentos criativos. Mas naquela tarde, ele desejara que o tempo ficasse realmente em câmera lenta e que a chegada à sua casa jamais acontecesse. As narrativas a seguir são dos eventos após a saída de Jansen da minha casa, ele mesmo fez questão de narrar e em alguns pontos eu entro narrando também:

De repente, os pingos de chuva poderiam parar no tempo... Os carros poderiam parar de correr em alta velocidade, as garotas que corriam para salvar suas maquiagens poderiam ficar paralisadas, o tempo poderia parar... voltar... mas isso é impossível. Eu poderia ser bom alguma coisa realmente útil, como diz meu pai, eu poderia ser como meu ídolo do esporte, o jogador de basquete alemão Gustav Hraska, dizem que ele vai brilhar muito, eu queria brilhar... impressionar o meu pai e fazer ele se lembrar de mim pelo que eu faço e pelo que sou e não pelo fracasso que me enfiei afundado em números.
Minha vida, nos últimos três anos mudou bastante. Eu tinha uma família, pai, mãe e um irmão mais velho. Meu pai era contador, talvez por isso ele não gostasse de me ver envolvido com números, ele sempre tinha problemas com seu temperamento; minha mãe sofria de um distúrbio, ela escutava vozes e fazia o que elas mandavam, certa vez quando voltava da escola encontrei com ela dizendo que alguém tinha dito a ela que a cidade estava sitiada e que ia para o supermercado para comprar mantimentos para um mês... tirar essa idéia dela foi muito difícil, então meu pai decidiu interna-la por decisão do psicólogo dela, todos os finais de semana vou visitar ela, no entanto, nos últimos meses não consigo mais vê-la, temo que talvez tenham feito aquela loucura de novo procedimento; e finalmente meu irmão, fazem dois anos que ele morreu... digamos que ele se meteu com as pessoas erradas. Meu pai se casou com uma mulher muito nojenta, ela era atriz e sei lá o que aconteceu, ela de repente faliu, e desde que meu pai se casou, ele não tem mais atenção para as coisas boas que eu faço só sabe me criticar.
A chuva não parou! Maldita imaginação!
Corro pelos becos que conheço para cortar o caminho... Cortar caminho para que? Para levar uma bronca ou apanhar mais rápido? É uma fuga para a prisão.
Cheguei em casa, ela estava sentada no sofá, e me dirigiu apenas as palavras:
-Ele está lá em cima, e está decepcionado com você, desta vez você pisou na bola...
Subi as escadas bem devagar, abri a porta, ele estava bêbado... como sempre... não havia sentido. Sem mais palavras... Aquele era meu drama, o que se escondia por trás de um nerd? Uma humilhação quase que diária. Sempre tive vontade de contar isso para o professor Fabrício, mas tenho medo dele intervir e as coisas ficarem ruins, alias, piores para meu lado.
Agora estou aqui deitado na minha cama, com muitas dores. Amanhã na escola vai ser difícil explicar a razão do olho roxo. Mas o olho é o de menos, é o trauma mínimo visível, hematomas nas pernas e na barriga é rotina sem dizer no meu emocional. Não tenho base, caminho... Nada que me dê uma mão para o futuro.
Todos estão dormindo, só eu acordado. Quero saber como minha mãe está agora. Quero ir na casa de repouso e vê-la. Éramos a família perfeita com ela, não fosse o meu irmão fazer algumas coisas, esse problema talvez ficasse adormecido. Então, estou decidido a conversar com o professor amanhã, pois ele é o único que liga para o quem eu sou. Ele estava tão animado em ter aberto aquela maleta... Estranho uma maleta tão sofisticada como aquela ter como segredo o número do meu armário na escola. Vou tentar dormir, amanhã tenho que ter coragem para encarar o mundo.

Confesso que fiquei preocupado com Jansen, sabia que as coisas poderiam não acabar bem, pois elas nunca acabam bem para ele.  Eu dei aula para o irmão dele, Johnatan Strauss, pense num menino aplicado de certa forma em muitas matérias, mas sua maior habilidade estava no esporte. John se destacou três anos seguidos nos jogos de futebol, mas ele queria mais, sempre mais, superar os limites de seu corpo. Certo dia, vi ele se drogando no fundo da faculdade, eu o aconselhei, mas como diz por ai, ele já era maior de idade, com 22 anos e eu não iria bater na mão dele e mandá-lo para a diretoria, dizem os boatos que ele se viciou a tal ponto que mandaram executá-lo. Depois disso a mãe dele foi internada e o pai se casou novamente com uma atriz em decadência. Tenho pena dele, queria poder fazer algo.
Passo a noite analisando o conteúdo da maleta, mas sem sucesso, pois corrigir provas não é nada fácil. Termino de corrigir as provas e durmo.

Acordo finalmente as 6 da manhã, não me apresso em tomar o café, coloco minha jaqueta caramelo e um boné azul, e saio lentamente para conseguir chegar a escola as 7 em ponto, mas sempre chego as 6:30. O professor chega na escola as 6:55, tenho a terceira aula com ele e no intervalo vou conversar com ele. Então, aqui estou indo para escola passando pelos caminhos mais longos a fim de chegar no horário, mas esses caminhos não se mostram eficazes. Chego no mesmo horário na escola e fico sentado nos degraus com a cabeça abaixada. As aulas começam, as horas não passam rápido, o professor Fabrício está com um sorriso de satisfação e duvida no rosto. E finalmente intervalo, pego meu lanche e sento na mesma mesa de sempre, e então o professor chega, e iniciamos nossa conversa:

- Jansen, como você está? O que aconteceu no seu rosto?
- Professor, tem algo que eu quero te falar faz tempo, mas não tenho coragem, meu medo é superado pela vergonha.
- Jansen, você sabe que pode contar comigo, sou seu amigo, seu professor... Poxa, não tenha medo.
-Eu tenho medo de estragar seu dia, mas já estou no limite...
As palavras fluíram com as lagrimas, gestos e muita dor. O professor ficou com um olhar de indignação e ao mesmo tempo pena. Eu não sabia se eu estava certo do que estava fazendo, mas aquilo estava me tirando um peso. O intervalo terminou e o silencio permaneceu entre nós, o professor que parecia tão frio se mostrou perplexo. Então ele me dispensou de volta para a sala de aula.

Hoje ouvi da boca do Jansen algo que jamais pensei que eu ouviria, aquele garoto sofreu muito durante esses últimos anos, não sei se corro atrás de autoridades ou converso diretamente com o pai dele. Tenho pelo menos duas horas para pensar no que fazer. Não quero que ele como um gênio acabe em algum orfanato por ai ou caindo em famílias erradas. Ele é de fato muito inteligente, ele descobriu a combinação para abrir a mala, talvez também saiba o que fazer com o que tem dentro dela. Eu quero e vou ajudá-lo, mas agora tenho que dar aula, mas tenho um plano em mente.