domingo, 8 de maio de 2011

Jansen



A chuva caia lentamente, só na mente dele... Quando você tem 16 anos e é um aluno aplicado você pode ter alguns momentos criativos, Jansen sempre teve seus momentos criativos. Mas naquela tarde, ele desejara que o tempo ficasse realmente em câmera lenta e que a chegada à sua casa jamais acontecesse. As narrativas a seguir são dos eventos após a saída de Jansen da minha casa, ele mesmo fez questão de narrar e em alguns pontos eu entro narrando também:

De repente, os pingos de chuva poderiam parar no tempo... Os carros poderiam parar de correr em alta velocidade, as garotas que corriam para salvar suas maquiagens poderiam ficar paralisadas, o tempo poderia parar... voltar... mas isso é impossível. Eu poderia ser bom alguma coisa realmente útil, como diz meu pai, eu poderia ser como meu ídolo do esporte, o jogador de basquete alemão Gustav Hraska, dizem que ele vai brilhar muito, eu queria brilhar... impressionar o meu pai e fazer ele se lembrar de mim pelo que eu faço e pelo que sou e não pelo fracasso que me enfiei afundado em números.
Minha vida, nos últimos três anos mudou bastante. Eu tinha uma família, pai, mãe e um irmão mais velho. Meu pai era contador, talvez por isso ele não gostasse de me ver envolvido com números, ele sempre tinha problemas com seu temperamento; minha mãe sofria de um distúrbio, ela escutava vozes e fazia o que elas mandavam, certa vez quando voltava da escola encontrei com ela dizendo que alguém tinha dito a ela que a cidade estava sitiada e que ia para o supermercado para comprar mantimentos para um mês... tirar essa idéia dela foi muito difícil, então meu pai decidiu interna-la por decisão do psicólogo dela, todos os finais de semana vou visitar ela, no entanto, nos últimos meses não consigo mais vê-la, temo que talvez tenham feito aquela loucura de novo procedimento; e finalmente meu irmão, fazem dois anos que ele morreu... digamos que ele se meteu com as pessoas erradas. Meu pai se casou com uma mulher muito nojenta, ela era atriz e sei lá o que aconteceu, ela de repente faliu, e desde que meu pai se casou, ele não tem mais atenção para as coisas boas que eu faço só sabe me criticar.
A chuva não parou! Maldita imaginação!
Corro pelos becos que conheço para cortar o caminho... Cortar caminho para que? Para levar uma bronca ou apanhar mais rápido? É uma fuga para a prisão.
Cheguei em casa, ela estava sentada no sofá, e me dirigiu apenas as palavras:
-Ele está lá em cima, e está decepcionado com você, desta vez você pisou na bola...
Subi as escadas bem devagar, abri a porta, ele estava bêbado... como sempre... não havia sentido. Sem mais palavras... Aquele era meu drama, o que se escondia por trás de um nerd? Uma humilhação quase que diária. Sempre tive vontade de contar isso para o professor Fabrício, mas tenho medo dele intervir e as coisas ficarem ruins, alias, piores para meu lado.
Agora estou aqui deitado na minha cama, com muitas dores. Amanhã na escola vai ser difícil explicar a razão do olho roxo. Mas o olho é o de menos, é o trauma mínimo visível, hematomas nas pernas e na barriga é rotina sem dizer no meu emocional. Não tenho base, caminho... Nada que me dê uma mão para o futuro.
Todos estão dormindo, só eu acordado. Quero saber como minha mãe está agora. Quero ir na casa de repouso e vê-la. Éramos a família perfeita com ela, não fosse o meu irmão fazer algumas coisas, esse problema talvez ficasse adormecido. Então, estou decidido a conversar com o professor amanhã, pois ele é o único que liga para o quem eu sou. Ele estava tão animado em ter aberto aquela maleta... Estranho uma maleta tão sofisticada como aquela ter como segredo o número do meu armário na escola. Vou tentar dormir, amanhã tenho que ter coragem para encarar o mundo.

Confesso que fiquei preocupado com Jansen, sabia que as coisas poderiam não acabar bem, pois elas nunca acabam bem para ele.  Eu dei aula para o irmão dele, Johnatan Strauss, pense num menino aplicado de certa forma em muitas matérias, mas sua maior habilidade estava no esporte. John se destacou três anos seguidos nos jogos de futebol, mas ele queria mais, sempre mais, superar os limites de seu corpo. Certo dia, vi ele se drogando no fundo da faculdade, eu o aconselhei, mas como diz por ai, ele já era maior de idade, com 22 anos e eu não iria bater na mão dele e mandá-lo para a diretoria, dizem os boatos que ele se viciou a tal ponto que mandaram executá-lo. Depois disso a mãe dele foi internada e o pai se casou novamente com uma atriz em decadência. Tenho pena dele, queria poder fazer algo.
Passo a noite analisando o conteúdo da maleta, mas sem sucesso, pois corrigir provas não é nada fácil. Termino de corrigir as provas e durmo.

Acordo finalmente as 6 da manhã, não me apresso em tomar o café, coloco minha jaqueta caramelo e um boné azul, e saio lentamente para conseguir chegar a escola as 7 em ponto, mas sempre chego as 6:30. O professor chega na escola as 6:55, tenho a terceira aula com ele e no intervalo vou conversar com ele. Então, aqui estou indo para escola passando pelos caminhos mais longos a fim de chegar no horário, mas esses caminhos não se mostram eficazes. Chego no mesmo horário na escola e fico sentado nos degraus com a cabeça abaixada. As aulas começam, as horas não passam rápido, o professor Fabrício está com um sorriso de satisfação e duvida no rosto. E finalmente intervalo, pego meu lanche e sento na mesma mesa de sempre, e então o professor chega, e iniciamos nossa conversa:

- Jansen, como você está? O que aconteceu no seu rosto?
- Professor, tem algo que eu quero te falar faz tempo, mas não tenho coragem, meu medo é superado pela vergonha.
- Jansen, você sabe que pode contar comigo, sou seu amigo, seu professor... Poxa, não tenha medo.
-Eu tenho medo de estragar seu dia, mas já estou no limite...
As palavras fluíram com as lagrimas, gestos e muita dor. O professor ficou com um olhar de indignação e ao mesmo tempo pena. Eu não sabia se eu estava certo do que estava fazendo, mas aquilo estava me tirando um peso. O intervalo terminou e o silencio permaneceu entre nós, o professor que parecia tão frio se mostrou perplexo. Então ele me dispensou de volta para a sala de aula.

Hoje ouvi da boca do Jansen algo que jamais pensei que eu ouviria, aquele garoto sofreu muito durante esses últimos anos, não sei se corro atrás de autoridades ou converso diretamente com o pai dele. Tenho pelo menos duas horas para pensar no que fazer. Não quero que ele como um gênio acabe em algum orfanato por ai ou caindo em famílias erradas. Ele é de fato muito inteligente, ele descobriu a combinação para abrir a mala, talvez também saiba o que fazer com o que tem dentro dela. Eu quero e vou ajudá-lo, mas agora tenho que dar aula, mas tenho um plano em mente.

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