terça-feira, 8 de novembro de 2011




-... Eu não tenho todas as respostas, porque ainda há muito mais envolvido. Coisas que ainda não aconteceram... – disse Simone olhando para os lados, talvez ainda com medo de que os enfermeiros a sedassem novamente. – Estes fragmentos que chegaram a você vêm da Empresa. Entenda, as coisas vão começar a ficar estranhas por aqui. Aliás, muito piores do que já estão...  o acidente de trem não é por mero acaso.

- Espere, como você sabe do acidente de trem? – interrompi a mulher abruptamente – A senhora não saiu desse quarto!
- E quem disse que eu preciso sair daqui para saber das coisas?  - disse ela se inclinando para frente, retirando um jornal de debaixo dos colchões do quarto – Foi ele quem me trouxe...
- Ele quem?
- O mesmo que estava no seu apartamento! Ele está só perturbado... Entenda, quando uma pessoa passa por uma estrutura temporal que está com uma fissura, ela pode sofrer alguns danos...

Confesso que, por dentro, eu estava rindo do que aquela mulher dizia com tanta convicção. Jamais havia lido aquela informação em nenhum livro de física, sequer sabia sobre aquelas contas... Até que ela me surpreendeu: no mesmo colchão que ela acabara de levantar para pegar o jornal, também tirou um papel dobrado e bem grosso; começou a abri-lo e a dobra de 20x20 se tornou uma enorme planilha cheia de cálculos fundamentados.

- Senhor, olhe a marca d’água no fundo do papel... Está vendo? Este é o responsável por todo o dano do mundo futuro! O responsável por todas as desgraças desde que cheguei aqui! SIM, HEAVEN’S! E o senhor é quem pode fazer com que isso não aconteça! Se ‘ele’ está aqui é porque você conseguiu fazer que desse certo!
- Simone, minha senhora... Não noto sentido no que você está dizendo agora. Acho melhor eu me retirar...
- Não! Eu nunca estive tão sã! Estou te dizendo de professora de física para professor de física: tudo o que eu te digo está abalizado, tenho provas e cálculos que te ajudarão a tirar suas próprias conclusões.

Então, naquele instante, eu parei e vi a razão em suas palavras:

Simone Strauss:
Fui contratada pela Heaven's dois anos depois da sua instalação em nossa cidade, por um bem-feitor que queria encontrar alguém muito valioso para ele. Esse homem tinha muita proximidade com a minha família. Meus dois filhos eram alunos dele no colégio.
A primeira fase do nosso projeto estava quase pronta: perfurar o tecido do tempo, causar uma ruptura e transportar uma pessoa para o passado. Uma moça muito bela se voluntariou para o processo. Mas existia uma lei: ela não deveria encontrar consigo mesma no passado, para que seu futuro e psicológico não fossem afetados.
Imagine se encontrar com uma versão mais velha de você, quando ainda se é adolescente, ou jovem. É um choque difícil de se apagar da mente de qualquer pessoa.
A cobaia se escondeu, literalmente, dela mesma e terminou por se apaixonar por alguém do lado do outro lado do tempo - alguém que não tinha seu amor no futuro, mas estava plenamente preocupado em modificar o passado. Ao notar que algo estava errado, o nosso superior mandou que a experiência terminasse por ali. Então fui buscar a moça e entrei no portal e visualizei o mundo que eu não vira desde que meus filhos eram jovens. Ela retornou para a nossa época, e eu fiquei.
Naquela mesma noite, fui a casa onde eu e meu falecido marido morávamos. A minha versão mais jovem estava lá com toda a família. Éramos todos tão felizes... Nosso terceiro filho havia nascido! Ver-me jovem novamente, e com saúde me alegrou muito. Quando vi a mim mesma saindo para colocar o lixo na rua, me segui. Toquei em seu ombro... Fiz a besteira de entrar em contato. Gritos foram ouvidos e se aquilo fosse divulgado, seria um escândalo. Saquei do meu bolso minha arma, e atirei em mim mesma... Sim, meu outro eu. Um tanto mais jovem, e me substitui no mundo passado. NESSE MUNDO! Logo depois meu filho morreu e eu agarrei a culpa, não tinha mais paz... Comecei a falar de tudo o que aconteceria dali a 30 anos. Todos tiravam sarro de mim. Não sei o que aconteceu ao meu marido desde que fui trancafiada aqui e colocaram aquele picador de gelo na parte de trás do meu olho...
-... Entenda uma coisa: quem te manda essas cartas e tudo mais, quer que você destrua o passado a fim de consertar o futuro!

Meus olhos se encheram de lágrimas. Quase chorei diante daquela história que a senhora Strauss me contava... Mas tinha minhas dúvidas. Três filhos? Onde estaria o do meio?
Em meio a tanta confusão, Simone me mostrou na sala um fundo falso e dali retirou algumas coisas um tanto peculiares: um circuito elétrico e um contador. Jogamos aquelas coisas pela janela do quarto dela, que dava num matagal. Quando saí do hospital, recuperei os objetos e voltei para casa.

domingo, 6 de novembro de 2011


Naquela noitinha, como de costume me recostei à bancada e comecei a analisar o objeto que eu tinha na maleta. Era um objeto de metal, todo cheio de espirais, e infelizmente ele parecia estar quebrado, ou pertencer a alguma coisa, tipo fazer parte de um contexto em alguma coisa. E mais embaixo de onde estavam as espirais, havia uma outra carta, eu comecei a ler ela, mas logo peguei no sono, mas já tinha em mente no que fazer no domingo.
Amanhece, é domingo, a noite passou como um sopro leve.
Arrumei minhas coisas rapidamente e se fazer nenhum barulho para acordar Jansen. E saí. Eu sei que ele vai se comportar e que ele vai entender o bilhete que deixei em cima da mesa para ele.
Peguei o primeiro taxi que encontrei na rua, e para minha sorte, foi o mesmo taxista que nos conduziu ontem para o Santa Teresa. Pedi para ele me levar até o local que fomos ontem. Eu já sabia qual quarto ir e o que dizer... Eu até mesmo tinha toda a certeza de que tudo se explicaria ali: o homem que me atacou, as cartas que eu tenho em mãos até o dia solene que é hoje.
Entrei no hospital, e conversei com o enfermeiro chefe das visitas, e menti, alegando ser o filho mais velho dela e que exigia a visita. O enfermeiro concordou, abriu a porta da cela onde ela estava, e eu finalmente tive o acesso que queria ter. Sentei-me numa cadeira que tinha no canto da sala, e fiquei ali, por horas, deixando ela me analisar, até que ela tivesse certeza de que eu não representava nenhuma ameaça para ela. Lentamente ela se aproximou, sentou na minha frente e ficou me observando... por alguns minutos, assim como uma criança que se senta na frente de seu pai na expectativa de que ele lhe leia uma historia. Então pude finalmente ver com meus olhos quem era a Senhora Strauss. Ela tinha olhos bem arredondados, e talvez até mesmo com marcas do sofrimento no manicômio, seus longos cabelos eram castanho claro, e ela possuía um rosto quase que perfeito.          
Naquele momento de paz e tranqüilidade, onde eu estava cercado de paredes brancas com Simone Strauss sentada no chão na minha frente, eu sorri para ela e disse:
- Simone... Eu sou o tutor de Jansen... Vim te visitar para te falar sobre... – tirei uma das cartas do meu bolso e mostrei para ela, ao mesmo tempo que falava – HEAVENS...
Ao ver o nome e o logotipo, ela começou a gritar, como se eu tivesse mostrado para ela a imagem do demônio, seus gritos eram tão altos, que os enfermeiros entraram violentamente pela porta e me agarraram com o intuito de me tirar da sala, eu fiz um esfoço muito grande para me desvencilhar dos homens, mas eles eram muito fortes, no entanto, quando eles estavam quase conseguindo me tirar da cela, uma voz doce e delicada quebrou o momento, dizendo:
- Deixem o homem em paz... Ele quer conversar comigo, e eu tenho algo para lhe dizer.
Os homens que me carregavam não acreditaram quando se depararam com Simone em pé, dizendo isso . Me desvencilhei dos enfermeiros, e eles se retiraram do quarto, fechando as portas com ar de admiração.
Simone pediu que eu me sentasse na banquetinha e ela se sentou na cama. Então, ela abriu a boca e soltou as primeiras palavras:
-Você tem que saber de algumas coisas... Não quero que pense mal sobre mim, ou que estou nessa condição por mero acaso. Respostas serão dadas..