quarta-feira, 20 de abril de 2011

O Dia Seguinte

Segunda feira chuvosa; acordei logo cedo para dar aula. Eu teria muita alegria e até certa iniciativa positiva para encarar os alunos em dilemas básicos sobre física, não fosse a minha janela quebrada e grande parte de minhas anotações se espalhando pela rua conforme o vento soprava. Não estava incomodado com o fato das anotações voando mas sim com aquela maleta que permanecia como um mistério. Tentei de tudo para abrir a maleta, mas meus esforços foi em vão, ela possuía um mecanismo muito avançado, mas o que vinha a ser a chave para habilitar meu acesso ao seu conteúdo. Eu estava intrigado, parecia que aquela mala continha respostas necessárias para meus conflitos.
Arrumei as minhas coisas e desci pelas escadarias e me deparei com a caixa de cartas, eu hesitei, lembro-me de minha mãe me dizendo sempre: “Se hesitar, não faça.” No entanto, eu fiz, abri a caixinha, e me deparei com um uma nova carta, as coisas ali eram meio confusas, falou de alguém chamado Gustav e outras coisas que não era capaz de assimilar. Dobrei a carta, e coloquei na minha pasta para depois avaliar com mais sentido.
Chego no colégio, e encontro sentado como sempre faz, nos degraus de entrada o meu melhor aluno: Jansen Strauss , ele tem apenas 16 anos mas é um gênio da área de exatas e ótimo jogador de basquete. É uma pena que gênios tenham que ter uma vida tão sofrida, pelo que consta nos relatórios da escola sobre ele, sua mãe está numa casa de repouso e seu pai é casado com uma atriz que entrou em decadência e essa é a razão da vida dele, deixando de lado tudo que já foi prioridade. Jansen é um garoto solitário nesse mundo. Por isso achei melhor dar um pouco mais de atenção para ele, nos intervalos ao invés de me sentar na confortável sala dos professores para tomar um café, comer bolachas e discutir sobre quando seria a nossa próxima greve, eu me sentava nos bancos duros em tamanho para anões no refeitório conversando com ele. Não gosto de me aproximar das pessoas, pois tenho aquela sensação que mais cedo ou mais tarde elas serão arrancadas de mim, por isso talvez ainda não tenha me casado, uma ressalva: eu me casaria, mas aquilo que alguns chamam de destino e outros de acaso não estava ao meu favor.
Enfim, quebrando o protocolo, naquele dia eu não me sentei com Jansen, precisava analisar aquela carta com calma, como as aulas naquele dia iam até a tarde, encerrei o expediente naquela hora mesmo, e me dirigi ao endereço que constava na carta.
Após pegar um taxi e ir até os limites da cidade, me deparei com um belo campo verde com salgueiros balançando conforme a canção do vento, o cenário era muito bonito, não fosse o que havia nos fundos do campo, uma cerca igual aquelas usadas nos campos de concentração e mais a frente uma edificação com aparência tenebrosa, toda cinza, comprida com o telhado meio arredondado, como se fosse lápides gigantes, eu estava no Sanatório Santa Teresa. Aquele sanatório era muito conhecido por suas experiências envolvendo seus pacientes com lobotomia (uma técnica em que o paciente leva uma martelada na região acima do olho com um picador de gelo, rompendo assim os neurônios ‘causadores’ de algum desvio de comportamento, deixando a pessoa praticamente sedada).  Não tive coragem de entrar no sanatório, no entanto, sei que mais cedo ou mais tarde, alguma coisa me forçará a entrar naquele circo de terror. Pedi ao taxista que me levasse de volta para casa.
Cheguei a minha casa, troquei de roupa e empreendi na minha pesquisa sobre o que a carta dizia... A campainha tocou, era Jansen, pedi que ele entrasse para que pudéssemos sentar e ter a conversa que não tivemos na hora do almoço. Então, com seu olhar rápido, ele viu a mala e cima da mesa, e notei que ele ficou muito inquieto e perguntei para ele se ele queria analisar aquele objeto. Sem esboçar medo ou duvidas, ele tomou o objeto de cima da mesa colocou sobre seu colo e virou de todos os lados, assim como uma criança faz ao receber um presente de natal. Me indagou qual seria o conteúdo da mala, eu fiquei sem saber o que responder e dei de ombros, afinal, não havia conseguido desvendar o segredo para abri-la.
Após alguns minutos de analise, Jansen descobriu ali uma espécie de teclado numérico. E digitou uma sequência que lhe soava familiar. Ainda antes de ele conseguir terminar de digitar a combinação, eu havia dito a ele que não adiantaria, no entanto, antes de eu conseguir terminar a minha colocação, fui interrompido por um silvo, e a maleta se abrindo diante de meus olhos.
Era estranho, seu conteúdo era extremamente novo para mim, não sabia nem o que fazer com o que estava ali dentro aquela atmosfera de mistério e de certo nível de realização pessoal e até mesmo de surpresa pois o garoto descobriu o segredo, tudo aquilo foi quebrado pelo som do telefone, eu atendi, mas mal pude colocar o fone no meu ouvido, aos berros era o Senhor Strauss, mal tive a oportunidade de me despedir de Jansen pois, já imaginava o tamanho da fúria daquele homem.     

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