quinta-feira, 9 de junho de 2011

Prescrições



Os dias passaram, os alunos estavam animados para os bailes que se aproximavam naquela época. Jansen parecia estar bem e feliz morando comigo, mas sempre notei que ele tinha uma certa dificuldade em se relacionar com os amigos da escola ou com os jovens da idade dele e todas as noites ele rezava pela mãe dele. Ao mesmo tempo, ele todas as noites subia na bancada superior do loft para juntos analisarmos o curioso objeto que estava dentro da maleta. Ele realmente me ajuda em tudo que eu peço. Naquela semana, não houve mais cartas, achei um fato estranho, fiquei esperando por mais esclarecimentos mas imagino que venho sendo observado, de alguma forma.
Aquela semana conturbada passou rápido demais, então, Jansen me fez o primeiro pedido desde que o trouxe para morar aqui comigo:
- Fabrício... – disse ele timidamente – Se possível, poderia ir comigo visitar minha mãe?
Eu sabia que Jansen, catolicamente ia todos os fins de semana visitar sua mãe, mesmo que fosse para ir lá e dar de cara com o médico dizendo que ela não poderia ser visitada, e não quis que esse ritual fosse quebrado, então fomos lá para o sanatório.
Andando com o taxi por aquela estrada, pude me identificar para que lugar estávamos indo, já estive naquele lugar, passar pelos campos de flores do campo, pelo desfiladeiro e pelo lago em que todo inverno, devido às baixas temperaturas, congela durante o inverno e finalmente o Sanatório Santa Tereza. Eu olhei assustado para Jansen, mas o pobre do garoto não sabia de exatamente nada do conteúdo da carta, então me sentei na cadeira da sala de espera, e te confesso que o ambiente não era um dos melhores: haviam duas internas com camisolas que deixavam à amostra suas partes íntimas e com os cabelos totalmente despenteados, e uma gritava para a outra que sentia falta da sua filha que ‘viajou no tempo’ enquanto a outra fazia carinho no braço da sua amiga, alegando que na realidade, quem havia perdido a filha era ela. Do outro lado da sala, próximo de um quadro de Santa Teresa, havia um senhor com um papel, um possível documento alegando o óbito de alguém, a julgar pelo semblante triste e a posição encurvada do homem, do outro lado havia uma porta, com a seguinte sigla: E.L.A (Exames Laboratoriais Avançados), os médicos entravam ali com internos, saiam sem eles e depois enfermeiras com macas saiam de lá também, deixei a minha imaginação ir mais além para refletir o que acontecia ali.
Então, Jansen apareceu na porta da recepção com um olhar perdido, dizendo que um enfermeiro queria conversar comigo. Eu me levantei, pedi que ele se sentasse do lado de fora, no jardim do local que logo eu voltaria e fui no meu papo com o médico:
- O senhor é o novo tutor de Jansen, certo? -  perguntou o homem todo de branco.
- Sim, ele veio morar comigo, você sabe como são as coisas com ele... -  o médico sequer deixou eu terminar minha  alocução.
- Pedimos ao senhor, que por favor, não permita mais a visita dele ao paciente 374, é um questão muito delicada.
- Como o senhor tem a petulância de me pedir isso? Entenda, para Jansen, ela não é um paciente como vocês a tratam e sim a MÃE dele!
- Senhor Fabrício... É justamente por essa consideração afetiva, que não permitimos que o garoto entre. Há 2 anos, nós fizemos com o endossamento do Senhor Strauss, fizemos nela um processo, chamado lobotomia, que foi iniciada em 1935 e muitas pessoas principalmente parentes de famosos, como a irmã de Kennedy, fez uso da técnica. No entanto, a mãe de Jansen ficou realmente pior do que quando entrou aqui na clinica.
- Pior? Como?
- Senhor Fabrício, veja por si mesmo... - o enfermeiro abriu um portinhola na porta maciça, revelando uma sala inteiramente estofada , uma cama sustentada por duas corrente soldadas numa base de metal, uma vaso sanitário e no canto da sala, sentada se balançando com as mãos envolvendo os joelhos e com longos cabelos escuros estava ela: Simone Strauss.
O enfermeiro disse que logo que ela chegou, ela interagia com as demais internas, mas suas  idéias eram muito estranhas, eram coisas impossíveis de se acontecer, como por exemplo as torres que terminaram de ser construídas em 1973 cairiam por dois aviões em cada uma, ou talvez que daqui há 5 anos uma usina nuclear na Ucrânia iria causar tanto dano a uma cidade por conta de um teste causado por uma empresa concorrente. Então os médicos decidiram domar a fera existente nela: lobotomia. No entanto, após o procedimento ela perdeu mais ainda o juízo, ela se via no espelho e chorava... por horas, como se enchesse de remorso.
Então eu comecei a pensar na situação daquela mulher... Me afastei lentamente da portinhola, e me fixei no numero que estava na porta... 374... Então eu arregalei os olhos, e olhei para o final do corredor, sentia um olhar fixo na minha pessoa, eu reconhecia aquela forma usando jaqueta caramelo e de cabelos aparados e claros, o mesmo homem que me atacou no meu loft, ele estava ali, no final do corredor com fores nas mãos. Eu fique perplexo, então ouvi do outro lado do corredor, a voz de Jansen, me chamando, aquele chamado me distraiu e ao retornar para onde estava o homem, notei que ele não estava mais ali.
O enfermeiro me olhou com ar de reprovação, o fato de o garoto estar ali, então me mantive em pé, e fui em direção dele. Disse a ele que a mãe dele teria que ser visitada em outra ocasião, ele esboçou um sorriso e disse que se sentia feliz pois, ao menos eu havia tentado por ele.
Ao retornarmos para casa, Jansen foi tomar um banho e eu fiquei preparando a comida, e entre um lance de panelas e outro, peguei a carta, e vi que a mãe de Jansen estava envolvida de alguma forma com algumas coisas que ainda eram desconhecidas para nós. 

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